Cuidar de si e do outro - Parte 1

Estive durante alguns dias imaginando como iniciar um texto que falasse sobre o Cuidado. Grafo assim mesmo a palavra cuidado, com o "C" maiúsculo por tratar dele enquanto um substantivo, e continuarei grafando assim. Vivemos talvez uma época em que o homem parece estar esquecendo do que seja, e existe um movimento de robotização. Estamos envolvidos de gadgets, de tecnologia, de cobrança por resultados e ainda as grandes corporações que consomem pessoas e consomem ainda as menores organizações, que precisando sobreviver consomem outras pessoas, que desejam ser maiores e mais produtivas. Existem movimentos, ainda, que em nome de uma qualidade de vida buscam soluções para toda esta paranoia, criando uma outra. E neste meio todo estão as pessoas, independente de suas ambições.

Eu quero entrar no tema do cuidado pois parece-me imperioso para os dias atuais sabermos cuidar das pessoas. Diz-se que estamos vivendo na "geração mimimi", que é uma geração dengosa e melindrada. Diz-se ainda que as famílias estão diminuindo. Diz-se, também, que viveremos mais. Estamos também numa geração saúde, que corre e posta nas redes sociais. Que come alimentos orgânicos e funcionais. Temos de tudo em um espaço geográfico  e cibernético pequeno demais para o sonho de todos. Todos estão cuidando de si, ou esperando estar fazendo isso. A minha ideia é refletir sobre se este cuidado consigo mesmo não seja uma estratégia para a superação dos outros, para além de uma integração necessária para a própria vida. Sim, existe no cuidado com o outro uma contrapartida invisível, que é o auto-cuidado.

Imagem extraída da internet


Então desejei escrever sobre o que temos esquecido: de nos preparar para o Cuidado. Quis criar um contraponto à preparação para o Mercado, mas não sei se fui ou serei feliz, pois a ideia não é a de trata-los como diametralmente opostos, mas de partes que compõem uma mesma moeda: a ambição, a sobrevivência, e a convivência. Saber viver significaria cuidar de si, de seus anseios, e cuidar dos outros. Eu particularmente penso que a humanidade é um organismo único.

Foi então que caiu em minhas mãos um texto chamado "O cuidado de si para o cuidado do outro", escrito por Karla Patrícia Cardoso Amorim, e publicado na Revista eletrônica "Bioethikos", do Centro Universitário São Camilo. É sobre este texto que pretendo me debruçar nos próximos dias, para num primeiro momento refletir sobre esta capacidade de cuidar, que todos temos, e juntamente com outras habilidades intelectuais e técnicas, formarão o homem do futuro - e já do presente, pois precisamos muito do Cuidado.

O texto pode ser lido em PDF no seguinte link: Clique aqui para baixar e ler.


Falar sobre depressão com seu superior: é possível?

A depressão é uma doença frequentemente citada nas redes sociais, artigos de blogs e jornais por sua característica de tornar incapaz de viver uma vida com alguma qualidade em seus portadores. Li um artigo recentemente em que a OMS - Organização Mundial de Saúde - afirma que em 2020 esta doença será a mais incapacitante no mundo. No Brasil o número de portadores chegaria a 17 milhões de pessoas. Transtornos maiores de depressão podem, ainda, estarem ligados a outras patologias psicológicas, que se não tratadas, podem levar à morte (notadamente o suicídio).


A pessoa com depressão pode sorrir, mas por dentro a sua condição de vida é vazia, sem disposição ou sentido para viver, e isso afeta demais os seus relacionamentos, a sua energia para realizar tarefas rotineiras, a memória, concentração, dentre outras. 

De forma especial gostaria de tratar a depressão no ambiente de trabalho. Quantos não são, que em “estado depressivo” já não se percebem improdutivos e desajustados? Quanto mais alguém portador desta condição.

Por “estado depressivo” podemos dizer aquele momento de tristeza após uma notícia ruim, a perda de uma pessoa querida, o fim de um relacionamento etc. Estados depressivos são normais e fazem parte de nossa existência. Mas não confundir o estado depressivo com a depressão, que afeta o cerne de nossa visão da alma.

Então a partir dessa longa introdução gostaria de abordar alguns pontos sobre como tratar o tema depressão no ambiente de trabalho, especialmente com os superiores:

1- Reconhecer que a patologia está afetando sua vida por inteiro, inclusive o seu trabalho, de onde vem seu sustento é o primeiro passo. Precisamos identificar que há um problema a ser superado;

2- Buscar ajuda: Inicialmente um bom médico com condições de avaliar se esta depressão não seja um desequilíbrio químico. Através de alguns exames o médico vai identificar se esta depressão não seria um desequilíbrio da tireoide, do açucar, dentre outros, cujos sintomas em muito se assemelham ao da depressão;

E o meu superior, precisa saber?

Existem diversos níveis de hierarquia. Algumas empresas possuem estruturas mais complexas, já em outras a estrutura mais simples permite um contato direto com o dono da empresa. Eu penso que independente da situação organizacional, o caso de um afastamento por licença médica cria uma situação inevitável em que se precisa comunicar o motivo do afastamento. Sei que é difícil dizer isso, mas nenhum emprego vale mais que sua saúde, então deve-se agir com a verdade, mas exaltando (se for o caso) o quanto você já produziu pela empresa, ressaltando seus pontos fortes e habilidades, e que esta fase vai passar após o tratamento. É possível, também, assinalar que a necessidade de tratamento é condição para que a sua produtividade não seja [mais] afetada, podendo, assim, continuar seguindo normalmente seu trabalho quando do retorno.

Em casos de não haver necessidade de afastamento por licença médica, porém o tratamento se faz necessário, talvez seja melhor tocar a vida e o trabalho. O chefe imediato pode ser avisado, com certa discrição e cuidado, seguindo a ideia do parágrafo anterior, de forma a não criar em torno de você uma aura de “coitadinho”. Lembrando que nós somos pagos para dar retorno, resultado, e estar deprimido não vai tornar o seu chefe mais permissivista com relação a você, em detrimento de outros - que podem estar sofrendo de patologias ou problemas tão dignos de atenção.

Além desses pontos, é importante que a pessoa com depressão busque uma vida mais equilibrada emocionalmente, tenha com quem conversar, abrir o jogo. O ambiente de trabalho pode produzir boas amizades, porém aquelas em que podemos nos esvaziar de qualquer realidade social (faculdade, igreja, trabalho) pode produzir uma sensação de maior liberdade. A palavra ajuda muito ao depressivo no processo de auto-conhecimento. Buscar um hobby também vale a pena.

Em resumo, vale a pena falar com seu superior sobre depressão quando o assunto requer afastamento por licença. Nos casos de tratamento não-impeditivo, penso que a cautela no falar é condição de jogar claro com relação a algo que tem influenciado o seu desempenho, mas sem deixar de considerar o quanto você já produziu e poderá continuar produzindo, após alguns meses de tratamento e dedicação a superar-se.

Boa sorte. Seja feliz.

Em tempo: Não sou profissional da saúde mental, e sequer gestor de RH. Sou só alguém que convive com a condição, e que já errou muito ficando quieto ou romantizando a questão.

Livros: "Viver é a melhor Opção" - Parte 1

Com este post começo uma série de publicações que espero ser um fio condutor deste blogue: falar sobre leituras e audiências de assuntos que tratam da vida, do humano enquanto fome de viver.

Vou começar falando do Livro do jornalista André Trigueiro, chamado "Viver é a melhor opção - a prevenção do suicídio no Brasil e no mundo" (clique aqui para ver no site do autor) O livro tem a 1a edição datada de maio de 2015.

Não me recordo como me interessei pelo jornalista André Trigueiro, apesar de já o conhecer da tevê. É claro que o tema do suicídio me chamou a atenção, além da abordagem a partir da Doutrina Espírita, que mesmo não sendo a minha confissão religiosa, é um assunto pelo qual eu também nutro uma curiosidade tremenda. Enfim, dois assuntos que juntos me moveram a comprar o livro imediatamente.

Como falar do suicídio? Eu experimentei o suicídio em minha família, no ano de 1994. O meu padrinho se matou com um tiro na boca, e diz-se que ele também assassinou uma outra mulher. Não quero entrar em maiores detalhes porém este cenário é suficiente para que os mais entendidos possam levantar já uma situação pela qual ele esteja vivendo. Pois bem, eu tinha 16 anos e ainda era muito ingênuo - acho que a maturidade demorou a chegar até mim - porém o assunto lá em casa foi tratado de forma bem serena, de sorte que ficasse somente a dor pela perda de alguém muito querido. Era o único parente que meu pai possuía na cidade, já que ambos vieram do interior de Minas Gerais tentar a vida já havia muito mais de vinte anos. 

Então o suicídio entrava como um fantasma na minha vida, juntando-se à leucemia (outro personagem que faz parte da minha experiência com a morte).

Anos depois experimentava uma depressão profunda. Já era um homem feito, com responsabilidades profissionais, sociais e familiares. Ocorre que a ideia de dar cabo à própria vida emergiu como possibilidade. Nada demais, nunca tentei me matar, porém iniciar uma carta de despedida e sentir-me apaziguado com a possibilidade de não mais estar entre os vivos acendeu uma luz ultra-amarela em minha vida, e foi quando busquei pela primeira vez ajuda médica.

Enfim, hoje tenho uma certa sensibilidade pelo tema suicídio, e a minha reação diante de um episódio onde alguém tira a própria vida é de profundo silêncio e respeito. Optei por não fazer julgamentos, tão pouco amenizar a situação. Em primeiro lugar o meu respeito pelos parentes enlutados, pela sensação dolorosa de perda mas também de decepção (outro dia comento sobre isso); e também um silêncio por conta de encaixar o que enxergávamos daquela pessoa para não compreender o porquê de determinada atitude. 



Enfim, a chamada para o livro até agora não foi feita. André Trigueiro traz nos primeiros capítulos muitas informações acerca do suicídio, com dados relevantes que mostram como este fenômeno é impactante no país apesar de os números ainda serem bem menores que nos grandes centros mundiais onde as estatísticas mostram números ainda mais assustadores. Vai falar ainda sobre fatores de risco, questões práticas, tópicos abordados por suicidólogos e por fim a abordagem espírita, sem parecer panfletário. Uma leitura leve e convidativa não somente a reflexão sobre o tema, mas sobre a própria experiência de estar vivo. Espero ainda nesta semana escrever mais sobre o assunto.

[Sobre]viver


Como recomeçar este blogue, já que agora proponho-me a uma temática nova, ainda não experimentada? não sei quando se chegará até aqui alguém que, interessado em seguir adiante, permita-se também continuar caminhando, com algum sentido. 

Eu desejo escrever sobre a vida, sobre o desejo de viver. Pode ser que um dia aborde o desejo de morrer como a opção para a vida não ser mais aquele caminho doloroso e sem perspectivas. Claro, não quero justificar o suicídio, mas sim a realidade da vida e das exigências que fazemos dela. Não entendo de suicídio, de psicologia, de gente. Acho que sequer entendo de mim. Mas o que eu quero eu sei: quero continuar vivendo, e vivendo de verdade.

É que em determinado momento da minha vida experimentei algo tão profundo e puro que não consegui mais continuar vivendo sem que o sangue que jorrasse de minhas veias não fosse um sangue pulsado por um motivo. A vida precisa ter um sentido, eu preciso ter uma utilidade para além de pagar contas e ter prazer vez ou outra. 

Então a minha opinião sobre o viver não consegue alocar o desejo de manter-se vivo; eu preciso experimentar a realidade de estar dando a vida. Clichê de Facebook: "Viver por algo que vale a pena morrer"