Falar sobre depressão com seu superior: é possível?

A depressão é uma doença frequentemente citada nas redes sociais, artigos de blogs e jornais por sua característica de tornar incapaz de viver uma vida com alguma qualidade em seus portadores. Li um artigo recentemente em que a OMS - Organização Mundial de Saúde - afirma que em 2020 esta doença será a mais incapacitante no mundo. No Brasil o número de portadores chegaria a 17 milhões de pessoas. Transtornos maiores de depressão podem, ainda, estarem ligados a outras patologias psicológicas, que se não tratadas, podem levar à morte (notadamente o suicídio).


A pessoa com depressão pode sorrir, mas por dentro a sua condição de vida é vazia, sem disposição ou sentido para viver, e isso afeta demais os seus relacionamentos, a sua energia para realizar tarefas rotineiras, a memória, concentração, dentre outras. 

De forma especial gostaria de tratar a depressão no ambiente de trabalho. Quantos não são, que em “estado depressivo” já não se percebem improdutivos e desajustados? Quanto mais alguém portador desta condição.

Por “estado depressivo” podemos dizer aquele momento de tristeza após uma notícia ruim, a perda de uma pessoa querida, o fim de um relacionamento etc. Estados depressivos são normais e fazem parte de nossa existência. Mas não confundir o estado depressivo com a depressão, que afeta o cerne de nossa visão da alma.

Então a partir dessa longa introdução gostaria de abordar alguns pontos sobre como tratar o tema depressão no ambiente de trabalho, especialmente com os superiores:

1- Reconhecer que a patologia está afetando sua vida por inteiro, inclusive o seu trabalho, de onde vem seu sustento é o primeiro passo. Precisamos identificar que há um problema a ser superado;

2- Buscar ajuda: Inicialmente um bom médico com condições de avaliar se esta depressão não seja um desequilíbrio químico. Através de alguns exames o médico vai identificar se esta depressão não seria um desequilíbrio da tireoide, do açucar, dentre outros, cujos sintomas em muito se assemelham ao da depressão;

E o meu superior, precisa saber?

Existem diversos níveis de hierarquia. Algumas empresas possuem estruturas mais complexas, já em outras a estrutura mais simples permite um contato direto com o dono da empresa. Eu penso que independente da situação organizacional, o caso de um afastamento por licença médica cria uma situação inevitável em que se precisa comunicar o motivo do afastamento. Sei que é difícil dizer isso, mas nenhum emprego vale mais que sua saúde, então deve-se agir com a verdade, mas exaltando (se for o caso) o quanto você já produziu pela empresa, ressaltando seus pontos fortes e habilidades, e que esta fase vai passar após o tratamento. É possível, também, assinalar que a necessidade de tratamento é condição para que a sua produtividade não seja [mais] afetada, podendo, assim, continuar seguindo normalmente seu trabalho quando do retorno.

Em casos de não haver necessidade de afastamento por licença médica, porém o tratamento se faz necessário, talvez seja melhor tocar a vida e o trabalho. O chefe imediato pode ser avisado, com certa discrição e cuidado, seguindo a ideia do parágrafo anterior, de forma a não criar em torno de você uma aura de “coitadinho”. Lembrando que nós somos pagos para dar retorno, resultado, e estar deprimido não vai tornar o seu chefe mais permissivista com relação a você, em detrimento de outros - que podem estar sofrendo de patologias ou problemas tão dignos de atenção.

Além desses pontos, é importante que a pessoa com depressão busque uma vida mais equilibrada emocionalmente, tenha com quem conversar, abrir o jogo. O ambiente de trabalho pode produzir boas amizades, porém aquelas em que podemos nos esvaziar de qualquer realidade social (faculdade, igreja, trabalho) pode produzir uma sensação de maior liberdade. A palavra ajuda muito ao depressivo no processo de auto-conhecimento. Buscar um hobby também vale a pena.

Em resumo, vale a pena falar com seu superior sobre depressão quando o assunto requer afastamento por licença. Nos casos de tratamento não-impeditivo, penso que a cautela no falar é condição de jogar claro com relação a algo que tem influenciado o seu desempenho, mas sem deixar de considerar o quanto você já produziu e poderá continuar produzindo, após alguns meses de tratamento e dedicação a superar-se.

Boa sorte. Seja feliz.

Em tempo: Não sou profissional da saúde mental, e sequer gestor de RH. Sou só alguém que convive com a condição, e que já errou muito ficando quieto ou romantizando a questão.

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